A Banalização da Infra-Humanidade

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A maior comunidade minoritária em Portugal, creio eu, é a comunidade cigana. E é seguramente, também, a comunidade mais segregada, mais perseguida, mais policiada, mais humilhada, e mais estigmatizada. Naturalmente, é arriscado fazer comparações deste tipo, e de facto Portugal tem suficientes Snakes assassinados, Lbc’s espancados em esquadras de polícia, e Jaílzas alvejadas com o filho a assistir, para que se possa dizer que a condição das comunidades africanas e afrodescendentes é menos má, seja em que medida for. Mas apesar disso a alguma vergonha do passado colonialista (não tanta como se supõe nem como esse passado justificaria), junta-se a permeabilidade cultural ao anti-racismo moral da Benetton e da FIFA, e à hipocrisia «inclusiva» dos filmes de Hollywood e da cultura estadunidense, para já terem posto a discriminação dos negros na ordem do dia. São perseguidos, claro, mas já vão havendo mecanismos para tornar essa perseguição, e mesmos comportamentos racistas menos fisicamente dolorosos, como a troça e o estereótipo, na zona do indevido. A comunidade cigana não beneficia de praticamente nada disto, com resultados que a prática tem evidenciado.

Os exemplos disso mesmo prodigalizam-se nos últimos tempos e vêm de todos os lados: temos o suposto psicólogo Quintino Aires, presença habitual nas manhãs televisivas como deformador oficial do regime, a dizer que os ciganos não gostam de trabalhar (pouco antes de também estabelecer correlações curiosas entre o consumo de cannábis e a homossexualidade, para gáudio do luso-matarruanismo proibicionista e homofóbico); temos o Teatro Turim em Lisboa, a fazer uma peça de teatro sobre «os Lelos» que vendem nas feiras e não deixam as filhas casar livremente, contrastados com uma família de «betos de Cascais», num descarnado incensamento classista da burguesia e do seu charme discreto; temos ainda as persguições reiteradas à comunidade cigana no Alentejo, com funerais proibidos e muros levantados a ghettizar bairros sociais em Beja, perseguições e ameaças de morte em Moura, onde a coisa foi ao ponto de haver gados envenenados e um incêndio à igreja da comunidade. Nos três casos, to add insult to injury, com autarcas pretensamente comunistas ora a ser parte activa na construção do muro, ora a negarem um funeral por motivo nenhum, ora a dizer que as perseguições eram problema de polícia, como se não fosse essa mesma polícia institucionalmente racista, como os seus camaradas de partido constatam e denunciam quando o crime é na Amadora ou na linha de Sintra. A complacência e a colaboração do poder local do PCP com a ciganofobia no Alentejo, um dia, dará outro artigo.

Qual a questão de fundo que este problema coloca? O facto, precisamente, de estas coisas acontecerem. Sem querer cair em psicologismos, parece-me razoavelmente evidente com que todas estas coisas se passam porque há um sentimento generalizado de impunidade, nem que seja a punição da mera censura social, quando estas coisas se dizem e se fazem. Houvesse um mínimo de força do combate anti-racista, não fosse ele um mero moralismo de ocasião e constituísse de facto uma pauta política quotidiana e geral, e rapidamente se instituiria a recusa de ter semelhantes atitudes. É por isso tempo de agarrar esta tarefa.

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