Tempo de Clarificação

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Os dois temas que por estes dias estão na ordem do dia no debate político, permitem compreender, de uma forma muito concreta, uma discussão teórica que só a muito custo vai fazendo caminho à esquerda: a de que o frentismo, seja na sua vertente de «unidade das esquerdas», seja revestido de «unidade das classes e camadas antimonopolistas» ou de «unidade democrática e patriótica», está fadado sempre ao mesmo fracasso, sempre pelos mesmos motivos. Bem sabemos que esta opinião, dita assim de chofre, faz estremecer e abalar do estômago muitos dos que nos lêem. Haja, contudo, um pouco de paciência, e queiram acompanhar-nos na análise dos dois casos em apreço.

Falemos da profunda catástrofe que se fez sentir por estes dias em Pedrógão Grande e Figueiró dos Vinhos, vitimando dezenas de pessoas num aterrador incêndio. Há duas formas de abordar este tema, que dividiram e antagonizaram a esquerda por estes dias: a primeira, tratando a questão dos incêndios como um problema estritamente humanitário, reclamando recolhimento diante do sofrimento das vítimas, divulgando pedidos de auxílio aos bombeiros voluntários, adiando o debate político que a situação concreta exige e chamando-lhe «aproveitamento»; outra, considerando que a situação dos incêndios tem causas objectivas e responsáveis políticos, apontando a culpa que compete atribuir ao desmantelamento do sector primário, ao despovoamento do interior, ao agronegócio do eucalipto, ao regime caduco de propriedade do solo, ao descaso geral na redução das assimetrias regionais, à própria divisão inernacional do trabalho no seio da UE que os partidos de direita negociaram e aplicaram, e que a esquerda parece ter esquecido desde as posições conjuntas. Estas duas posições são antagónicas nos seus próprios fundamentos, e não há forma de as sintetizar.

O mesmo é válido para o debate que suscitou a presença de uma delegação do BNP Paribas na marcha do orgulho LGBT em Lisboa. De um lado, proponentes da ideia de que a luta pelos direitos e a visibilidade da comunidade LGBT não pode ser desgarrada da luta geral contra todas as formas de exploração e opressão, o que torna a luta anticapitalista uma inevitabilidade (e a convivência, numa mesma marcha, com um banco, algo impossível). Tanto mais que a opressão de género e de orientação sexual são instrumentais para a existência do próprio capitalismo, enquanto instrumentos de divisão de classe, de controlo social, de intrusão do Estado burguês na vida privada, de reforço de privilégios e estereótipos que legitimam a hierarquia social e servem como uma luva a quem domina. Do outro, quem quer esvaziar por completo o conteúdo político do combate LGBT, transformando-o numa mescla de celebração festiva com reivindicação apolítica de «direitos humanos» ou de «justiça» ou de qualquer outro expediente que permita integrar a luta (e portanto torná-la fundamentalmente anódina) no discurso tolerável pela ideologia dominante, sem romper com ela. Que isso signifique fenómenos de pink washing, de desvirtuação do sentido do que se combate, ou que permita a presença de dirigentes do CDS ou do PNR na marcha de hoje para amanhã – como é já moeda corrente no Reino Unido, por exemplo -, não lhes ocorre, ou não os preocupa. Também aqui não há como conciliar o opostos.

Estas duas perspectivas, uma que rompe com o sistema e outra que convive com ele, uma liberal e outra revolucionária. uma que reclama moralidade no exercício de um poder hierárquico que naturaliza e outra que recusa essa hierarquia classista e reclama uma revolução  que a destrua, não têm espaços de coexistência política que durem muito tempo. Aliás, em geral, em capitalismo, e os exemplos históricos disso mesmo superabundam, tendem a redundar na cooptação dos que querem uma solução radical, transformados em elementos do status quo, quando muito com a tarefa de seu tubo de escape, ou de seu grilo falante. À medida que a crise do capitalismo se aprofunda, e que a solução dos problemas dos explorados e oprimidos se torna literalmente uma questão de vida ou morte, a estratégia de convivência e concertação com os sectores liberais e reformistas, em nome da «unidade» revela-se inútil no melhor dos casos, e contraproducente maior parte deles.

A haver uma unidade que a hora actual reclame, ela é a das forças revolucionárias, anticapitalistas, com um posicionamento de classe inequívoco, que, diante da burguesia, do seu Estado, das suas estratégias e mecanismos de opressão, não vergue, não transija, não alimente ilusões sobre a possibilidade de os humanizar e reformar. Essa unidade será feita sem as forças liberais, e muito provavelmente contra elas. Quanto mais cedo essa consciência for clara, melhor para a causa da revolução.

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