Multi-Resistência à Aprendizagem

melenchon

As presidenciais francesas são este fim-de-semana e, como vem sendo habitual, a esquerda poético-fofa já tem a sua ilusãozinha de estimação. Depois de Obama e de Lula, depois de Corbyn e de Pablo Iglesias, depois de Tsipras e depois da geringonça, agora a mudança vai ser com Mélenchon. Mélenchon é que vai ser. Mélenchon é que vai mostrar. Com Mélenchon é que é.

Mélenchon já teve várias ocasiões de mostrar ao que vem. Sobre a emigração, já teve ocasião de dizer que “uma vez que as pessoas estão aqui, o que querem vocês fazer? Atirá-las ao mar? Não, isso é totalmente impossível. Portanto, mais vale que fiquem na sua casa. Estou cansado destas discussões em que os fantasmas se confrontam uns com os outros. Entre os que que uivam sem reflectir e se remetem para expedientes securitários sem consistência, e aqueles para quem é normal que toda a gente possa vir para onde quer e quando quer”. Propõe, no seu programa eleitoral, contratar mais funcionários administrativos para as esquadras de polícia, de modo a haver mais agentes nas ruas, um plano de renovação e aumento do número de esquadras. Ao mesmo tempo defende uma peregrina “negociação” sobre o funcionamento da UE, deixando claro aos seus apoiastes que é uma calúnia (!) afirmar-se que pretende tirar a França da UE ou do euro.

Já vimos este filme, todo ele, na Grécia (embora, deve dizer-se, uma parte dele só apareceu depois da vitória eleitoral de Tsipras: muito provavelmente, da mesma forma que a saída da França do FMI, da OMC, da NATO, e do BM, só aparecerão depois de Mélenchon se apanhar com os votos), e já devíamos ter aprendido com a história destas vedetas da esquerda poético-fofa, com as suas tergiversações e inconsequências, com o seu discurso bonitinho mas cheio de compromissos, onde as contradições abertas inclinam o plano totalmente a favor do inimigo, que só tem de deixar a gravidade fazer o seu serviço. A capacidade para ser enganado vezes repetidas e nada aprender com isso é de muito longe o fenómeno que os historiadores do séc. XXII vão estudar com mais espanto sobre o nosso tempo. Foram poucas as vezes na história da espécie humana em que a racionalidade comportamental e o sentimentalismo ceguinho tiveram uma representação tão desadequada enquanto instrumentos de solução dos problemas sociais.

Que fazer, então? Sempre e sempre, combater as ilusões reformistas e defender a constituição de alternativas revolucionárias. Bem sei que essas alternativas são de difícil construção, e que a tentação para, montados sobre o reformismo como a formiga da fábula em cima do elefante, olharmos para trás a dizer “olha a poeira que estamos a levantar!” é muito grande. Mas essa atitude fará de nós eternas e irrelevantes formigas que justificam com conversa frentista a capitulação perante a inevitabilidade de uma hegemonia social-democrata. A história não se fez assim, nem tem de se fazer assim futuramente.

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