Assaltado e Culpado do Roubo

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Toda a infra-estrutura económica, em qualquer sociedade, gera inevitavelmente uma superestrutura política, cultural, religiosa, e jurídica, que a conserve e a justifique. O capitalismo, obviamente, não haveria de ser uma excepção à regra que se verificou, até hoje, em todos os modos de produção. E sendo a infra-estrutura do capitalismo assente na acumulação contínua de capital (aquilo a que as empresas chamam «crescimento»), na mercadorização da vida social, na concorrência eliminatória, e na redução do trabalho a um factor produtivo a ser remunerado com o estritamente necessário à sua subsistência, a cultura, a política, a noção de justiça que este modo de produção engendra, não pode andar muito longe daquilo que são as suas características infra-estruturais.

Recentemente, foi perguntado ao Presidente do Eurogrupo, o holandês Jeroen Dijsselbloem, o que achava da solidariedade Norte/Sul dentro da União Europeia. Sendo a noção de solidariedade algo extremamente difícil de integrar dentro do sistema de pensamento de um político capitalista, a abordagem ao conceito feita pelo Sr Dijsselbloem, naturalmente, foi de cariz aproximativo, e de modo a transformá-la no seu absoluto oposto: disse o cavalheiro em apreço que a solidariedade é um valor que lhe é caro, mas que só a concebe como elemento de um acordo de toma e dá, de uma espécie de contrato de crédito entre credor e endividado, em que a pessoa ou a entidade solidária só o é se tiver a certeza de que quem está do outro lado o vai recompensar pela sua solidariedade. Ressarcimento esse, note-se, que não é apenas pecuniário: o Sr Dijsselbloem encara a solidariedade não apenas como uma oportunidade de ganhar dinheiro, mas também como uma ocasião de moldar o devedor. Afinal, se o devedor teve de pedir dinheiro, é porque tem algum defeito, moral certamente, que o tornou incapaz de acumular riqueza sozinho, como faz toda a gente. E esse problema moral é função do credor curá-lo, de contrário ver-se-á na obrigação de ser abnegada e desprendidamente solidário mais vezes, do modo que vemos que está a ser. Desde logo explicando ao devedor onde deve ou não gastar o seu dinheiro – em tudo menos em saúde, em educação, em protecção social, em reforço dos serviços públicos, como nos leccionou a troika por 4 anos. Os hospitais públicos e as escolas secundárias, se usados para servir pobres de Sul, são um desperdício de recursos. O equivalente, explicou Dijsselbloem, a gastar o dinheiro em mulheres e em copos de vinho.

Estas declarações são de uma xenofobia evidente, de um racismo evidente, de um machismo evidente, de uma nojeira evidente. Mas estas declarações são a consequência natural da existência de modo de produção capitalista. Quem quer um modo de produção assente na concorrência eliminatória, na redução do trabalho e do trabalhador a um elemento funcional das relações sociais, na divisão social e internacional do trabalho, na progressiva alienação da produção e opressão da sociedade pela dinâmica do próprio modo de produção, em suma, quem não quer de forma determinada e imediata desmantelar o capitalismo, quer isto. Porque enquanto o capitalismo existir, contra os pruridos morais e a decência comum de quem quer que se repugne com ele, é gente como o Sr Dijsselbloem que compreende e segue até às últimas consequências a lógica do regime. É possível discordar dele, claro. Não é possível é discordar dele e não querer a revolução depois.

Pelo que todas as manifestações de repúdio que possam ocorrer a uma esquerda parlamentar que aceitou viabilizar um Governo sem pôr em cima da mesa uma só exigência em matéria europeia, em matéria de funcionamento do modo de produção, em matéria de coisa nenhuma de realmente estrutural e significativo, não passa de lágrimas de crocodilo. Nenhum dirigente do PCP ou do BE é um ignorante, um inexperiente político, uma criatura iletrada, um pateta que nasceu ontem. Todos sabem de ciência certa que criaturas como Djisselbloem são a consequência natural da organização social que temos. Uma laranjeira dá laranjas, uma videira dá cachos de uvas, e o capitalismo produz cultura burguesa e seus representantes. A indignação com a boçalidade do senhor é um disparate tonto, como se as ideias nascessm na alma, ou caíssem do céu, e não fossem a inerência inevitável de vivermos na sociedade em que vivemos. Deseducando as massas com a sua atitude idealista, a esquerda depois queixa-se do recrudescimento do obscurantismo e das ideias reaccionárias e anticientíficas. E ainda é capaz de dizer que não tem nada a ver com isso.

A luta contra o Sr Djisselbloem continuará a travar-se, rejeitando as políticas que ele nos pretende impor e a arrogância nojenta como que o vem fazendo. Neste momento desenvolve-se, a portas fechadas e no segredo dos deuses, a negociação de um tratado, o CETA, que visa desregular ainda mais o mercado do trabalho, permitir às empresas processar os Estados cuja lei laboral prejudique os seus interesses, deslocar trabalhadores de país para país sem que beneficiem da protecção legal do país de chegada, transformar em definitivo o outsourcing de mão-de-obra em regra geral das relações de trabalho. A esquerda parlamentar portuguesa, naturalmente, prepara-se para apresentar moções de vivo repúdio e chorar a enorme vergonha que este acordo é, nas bancadas da Assembleia. Outros haverá que farão com que as massas se ergam, nos termos devidos, contra a agressão que sofrem.

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