Acabou o Jardim-Escola

A AEFCSH, numa RGA recente, pronunciou-se contra a realização de uma conferência do Jaime Nogueira Pinto na faculdade. A direcção da FCSH, alegando possíveis actos de violência, desmarcou o acontecimento. A extrema-direita (e não rara gente de esquerda, ciosa de um democratismo que até o direito democrático de a meter na cadeia admite) ergueu-se contra esta decisão, e o PNR convocou uma manifestação para 21 de Março, em protesto contra o «marxismo cultural» e o silenciamento do colonial-fascista acima citado. Um grupelho de carecas mais exaltados, aliás, invadiu as instalações da associação de estudantes, ameaçando pelo nome os proponentes da moção. Acto contínuo, os dirigentes da associação de estudantes… apagaram as contas de Facebook, com medo de represálias.

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No dia seguinte, quer a direcção da FCSH quer a reitoria da UNL tomavam a palavra para dizer que afinal a conferência cancelada por razões de segurança não tinha sido bem cancelada: tinha sido adiada, para ser maior e envolver mais participantes. Quanto à manifestação do PNR, continua de pedra e cal e tinha, à hora em que falo, sido notícia na imprensa falada e escrita. Alguns pequenos grupos de esquerda falavam da possibilidade de uma contra-manifestação, prontamente soterrados na torrente de opiniões pacifistas e/ou liminarmente cobardes, de que a violência só gera violência, de que esse é o jogo do próprio PNR, de que a arma da esquerda é a sua superioridade moral, e quejandas patacoadas. Haverá quem já torça para que o habitual cordão policial não falte, não vão ter de facto e enfrentar a fúria nazi-fascista.

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Que lições extrair daqui? Que a insistência contra a esquerda poético-fofa, a esquerda das flores e dos coraçõezinhos, da paz e do socialismo, dos unicórnios cor-de-rosa e das fadas madrinhas que nos vão dar o socialismo com poesia, respeito pela lei, e mudança de mentalidades graças ao poder do amor, é de facto um combate de vida ou morte. Literalmente. O efeito de termos uma esquerda que faz a sua educação política nos acampamentos do Liberdade e do Avante, à volta da fogueira a cantar cantigas meiguinhas com uma guitarra na mão e flores no cabelo, enquanto a extrema-direita faz o seu tirocínio nas claques de futebol e na segurança privada em espaços nocturnos, tinha de levar, no momento do enfrentamento inevitável, a esta figura triste de quem mais do que todos devia manter-se firme. No fim de linha, a política não se ganha com votos, nem com bons argumentos, nem com bonitos cartazes, nem com slogans cativantes. A política ganha-se na rua, e no plano a que Marx, eufemisticamente, chamava «da força material», que outro nome não tem, em linguagem corrente, que não seja «porrada». Contra os esbirros mais reaccionários da burguesia, filhinhos de papá ou lumpesinato racista e chauvinista, num primeiro momento, e mais cedo ou mais tarde contra a polícia e a tropa. Obter a disposição para esta tarefa organizando rodas de leitura de poesia e dancinhas da Carvalhesa, francamente, parece improvável.

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De toda a maneira, pode ser que este cagaço, se não servir para mais nada e apesar de ir dissuadir muita gente, gere noutra a noção de que viver de joelhos, a chorar, com medo de levar uma chapada de um careca facho é indigno de uma pessoa que se preze. E talvez à conta disso se comecem a fazer perguntas sobre a cultura política que o reformismo gera, desarmando os trabalhadores, acantonando-os, acobardando-os, fazendo deles diligentes respeitadores de uma lei que, perante uma manifestação fascista marcada e a postos, permite o desenrolar dos acontecimentos sem, como lhe compete, arrebanhar os seus dinamizadores pelo braço e os ferrar numa cela escura. O choque frontal com o facto bruto de que a lei, e o amor, e a camaradagem fofa, e os bons sentimentos morais tanto, e tão bem incensados pelas direcções de esquerda, serem um monte de lixo inútil ante o risco de uma patada nazi nos dentes, pode abrir os olhos a muitos destes estudantes. E serão bem-vindos então.

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