Consensualismo e Dissolução dos Interesses de Classe

Resultado de imagem para ugt

A esquerda portuguesa criticava Cavaco Silva a uma só voz sempre que ele aparecia nos jornais a pedir «consenso nacional». Era devido. Não existe no conjunto da população portuguesa, sociedade de classes antagónicas, o que quer que constitua interesse político comum de todos e cada um dos indivíduos que a compõem. O objectivo de Cavaco Silva é por isso o de transformar o interesse de uma classe – a burguesia – no interesse geral da população inteira, da «nação», iludindo os que serão prejudicados por um tal acordo com ideia de estarem a engrandecer o seu país caso apoiem uma política que lhes reserva apenas fome, miséria, e exclusão social.

Mas essa mesma esquerda tem a sua própria versão do «consenso nacional» cavaquista, que muda de rótulo para se passar a chamar «unidade da esquerda». Nesta versão revista e corrigida, o consenso não é entre todos os portugueses para bem «da pátria», mas de todas as forças da esquerda para bem «das pessoas». É de toda a evidência que tanto a noção de «pessoas» como o sentido exacto do que possa ser o seu «bem» têm suficiente amplitude para que lá dentro caiba tudo e se possa servir toda a gente. Na generalidade dos casos que a história tem registado as «pessoas» com que a dita cuja «unidade» se preocupam primordialmente são os sectores intermédios da sociedade, pequeno-burgueses e aristocratas laborais. E o seu «bem» tende a ser uma sociedade capitalista mais ou menos reformada, com salários algo maiores, impostos algo menores, mais uma escola e um hospital, mas nada de estrutural a ser beliscado na forma como a economia funciona.

O frentismo consensualista é portanto, na esmagadora maioria das vezes, uma estratégia habilidosa. Sob a pretensão de juntar forças contra um inimigo comum, aliás servida com o argumento ad terrorem de que quem se opõe à unidade, no fundo, tem um espírito de seita que não beneficia a classe, o que se faz é, de uma cajadada, matar pelo menos três coelhos: arredam-se as propostas mais radicais, as que mexam directamente na estrutura do modo de produção, porque «não são consensuais»; hipervalorizam-se as propostas de cariz político-administrativo, como mais ou menos liberdades civis, mais ou menos representatividade nos órgãos públicos, mais ou menos atribuições sociais a imputar ao Estado (que subitamente deixa de ser o Estado burguês e passa a ser um Estado neutral e supraclassista), posto que sobre elas, aparentemente «estamos todos de acordo»; gera-se um clima de profunda censura grupal e exaspero irritado para com quem levante críticas e «diga mal», posto que «dizer mal», longe de ser o exercício de um dos tais direitos democráticos com que o frentismo enche a boca, é afinal o uso da provocação e da descredibilização da unidade obtida, em abono da reacção montada contra a frente. Nunca é a frente que, com as suas meias medidas, hesitações, tibiezas, por rejeitar o programa radical e pôr o proletariado a reboque das classes intermédias, que franqueia a porta a uma reacção cada vez mais radical e arrogante. Jamais. Nunca tal se viu no Brasil, nos EUA, em França, nem em lugar nenhum. Só os sectários abrem a porta aos reaccionários.

Não haverá vitória dos trabalhadores sem unidade da sua classe. É uma verdade evidente. Isso implica, contudo, a criação de amplas linhas de massas que organizem os trabalhadores nos bairros, nos locais de trabalho, em torno das questões concretas e imediatas, em torno de objectivos intermédios, e em suma em torno da causa da revolução. Essa unidade da classe, que deve ser feita a despeito de convicções partidárias ou da ausência delas, bem como a despeito da etnia, do género, da orientação sexual, ou de qualquer outra mesquinhez que comprometa a força da organização popular, não é (e de nenhuma maneira pode ser confundida com) a unidade dos partidos de esquerda em torno de uma pauta reformista. O problema fundamental da chamada «geringonça» é não entender isto, e tentar curto-circuitar a urgente tarefa de organizar a classe (onde 9 em cada 10 pessoas nunca participou numa reunião sindical, numa comissão de moradores, numa assembleia do que quer que seja) com expedientes reformistas no parlamento da burguesia. Tal estratégia, mil vezes repetida, tem um lastro de dezenas de derrotas atrás de si. É importante aprender com elas, em vez de brindar com discursos moralistas quem as recorda.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s