Um revolucionário contra o reformismo

 

Se há figuras históricas individualmente consideradas que mereçam tudo da nossa admiração política, é pouco provável que Fidel não tenha de figurar entre elas. A despeito de todas as insuficiências (que as houve) e desacertos (que se fizeram) na sinuosa, por vezes desconcertante, em todo o caso heróica, construção da via cubana para o socialismo, as circunstâncias da revolução, e a circunstância da própria revolução, aí estariam para depor a favor de Fidel e tornar quaisquer incorrecções do seu percurso desculpáveis sem exagerar na benevolência.

Fidel emerge numa época singular em que nada faria crer que um movimento revolucionário pudesse eclodir. Não em Cuba, que ficava para lá da linha traçada nos acordos de Potsdam e Ialta, bem dentro de território que se reconhecia ser da esfera de influência dos Estados Unidos. Não contrapondo o socialismo ao fascismo, num tempo em que as teses do VII Congresso da Terceira impunham a impreteribilidade de uma via sacra de organização de frentes populares, edificação de democracias burguesas, e ulterior triunfo do proletariado e do socialismo, num trajecto tão duvidosamente marxista quanto fracassado onde quer que se tentou. Não no período histórico em que, a seguir ao XX Congresso do PCUS, se falava da coexistência pacífica entre países de modo de produção diferente, da passagem pacífica e indolor do capitalismo ao socialismo pela via eleitoral, se traçavam quadros apocalípticos para o futuro de qualquer povo que ousasse socorrer-se das armas para afrontar a dominação do imperialismo. Fidel, os barbudos do M-26, os guerrilheiros da Sierra Maestra, o heróico povo de Cuba, pegando em todo este lixo tóxico de ideologia pequeno-burguesa contrabandeada para as fileiras do proletariado, amarfanharam-no como a um papel inútil, e atiraram-no para o caixote do lixo da história. Foi um serviço, francamente tocante, que fizeram à causa da libertação dos explorados e oprimidos da Terra inteira, que nenhuma palavra alguma vez chegará para agradecer.

Cara a cara com o inimigo, enfrentando a ocupação militar efectiva na Baía de Guantanamo, a invasão da Baía dos Porcos, o bloqueio económico, as sabotagens económicas, os atentados e acções violentas (só contra a vida de Fidel pessoalmente, contam-se seicentos e muitos ataques), Cuba não se limitou, como cantou Carlos Puebla, a olhar o império nos olhos e a dizer-lhe «vê, yankee, como nos rimos de ti». Cuba é seguramente o Estado socialista que mais fez pela causa da revolução e do socialismo no mundo, enviando os seus soldados, os seus quadros, os seus professores e médicos, tudo o que a sua generosa (embora exígua…) capacidade lhe permitia, para Angola ou para a Venezuela, para a Nicarágua ou para a Etiópia ou o Congo, num esforço internacionalista e solidário que não tem qualquer paralelo. Armas cubanas e combatentes cubanos desfeitearam o imperialismo estadunidense, o apartheid sul-africano, os lacaios de Somoza, os colonialistas de toda a parte. E contra todos os esforços para estrangular a ilha e a reduzir à miséria e ao desespero, castigo da sua ousadia libertadora, como Fidel afirmava, hoje à noite milhões de crianças dormirão na rua, e nenhuma é cubana.

Teses como o «socialismo com mercado», acordos com a Meliá, a Odebrecht, a Sheraton, a criação de zonas económicas especiais na ilha, medidas de duvidosa utilidade para a construção do socialismo que vêm do Período Especial, parecem augurar muito pouco de bom para o futuro da Revolução Cubana. É pena se for assim, e seria de esperar que assim não fosse. Uma coisa é certa: o exemplo que o povo cubano deu, de libertação mesmo nas condições mais difícieis, contra o catastrofismo kruschevista e os discursos desmobilizadores tão em voga no movimento comunista do seu tempo, estala como um trovão na calmaria e ensina que não há impossíveis para quem se atreve a tomar o céu de assalto. E o papel fundamental que o Comandante-em-Chefe da sua revolução teve em todo esse processo justifica plenamente, reivindica a justo título, impõe a todos os revolucionários, uma homenagem sentida neste dia.

Hasta la victoria, siempre. Venceremos.

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