Sobre o mal menor e os seus cultores

A crise em que vivemos tem tido um dos efeitos que mais me agradam nas crises: o de reduzir as ilusões idealistas a escombros, em dois tempos e sem dó nem piedade. As exaltações sentimentais, as melancolias pequeno-burguesas, as velharias ético-morais que serviam de muralha de vento a proteger as classes intermédias, voam com uma patada e morrem afogadas na água gelada do cálculo mesquinho, como é seu destino natural em capitalismo. Entre elas, sobre todas elas, a mitologia reformista do Estado bonzinho, protector dos doentes, educador das crianças, auxiliador dos desempregados, cuidador dos idosos, polícia de proximidade com um sorriso nos lábios. Em tempo de crise, o burguês lança mão à máquina de calcular, vê quanto dinheiro está a gastar em salário indirecto, e puxa de tesoura para podar. A aristocracia laboral (que é empregada do Estado que tenta convencer a ser bonzinho, e a empregá-la a ela, para ser o corpo actuante dessa sua mesma bondade), a pequena burguesia,sobretudo intelectual, arruinada ou às portas disso, choram e indignam-se perante a malfeitoria. E uns e outros cerram fileiras numa única frente (deve ser isto a tal frente popular), tentando convencer os elementos do aparelho partidário burguês que se costumam armar em polícia bom da opressão de classe a fazer jus ao seu próprio discurso de enganar velhinhos e a combater os capitalistas feios, porcos e maus, que vêm numa avassaladora onda fascista. É pouco crível que, bons e maus em uníssono, os funcionários políticos da burguesia possam fazer outra coisa além de rir da cara destes idiotas.

Que denominador comum podem ter carimbadores de papel do aparelho de Estado, professores universitários, membros de partidos da esquerda betinha, advogados e arquitectos sem clientes nem encomenda, jornalistas radicalizados (verbalmente, verbalmente: também nada de exageros), activistas de ocasião e os sindicalistas que a gente cá sabe? Não há-de ser, naturalmente, o fim do trabalho assalariado, a expropriação da burguesia, o desmantelamento do seu aparelho repressivo, e a edificação de órgãos da vontade popular que substituam o poder caduco de um Estado em que, como já vimos, o polícia bom da burguesia tem boas e confortáveis posições (e a esquerda reformista, se não tem, gostava). Na medida em que o próprio polícia bom se começa a marimbar para a protecção dos doentes e dos velhinhos pela Segurança Social, começa a ser algo dificultoso forjar sequer uma pauta comum que tenha ares de esquerda. De que se lhe falará para que nos ouça? Da cultura? Da pátria?  Da ética? Do amor ao ser humano? Um deputado do BE, recentemente, decidiu que o eixo de convergência havia de ser o Estado de Direito. Outro deputado, de outro BE qualquer, ainda há-de ter a arte de arranjar coisa mais recuada ainda.

O triste espectáculo que esta esquerda cobardolas nos apresenta tem um enquadramento geral, insistimos, de crise. Um tempo em que a ordem burguesa, com diligência e, supomos, parando de vez em quando para rir das fitas que essa esquerda faz, se dedica diligentemente despedir trabalhadores, a pagar-lhes cada vez menos por cada vez mais trabalho, a sorver mais e mais riqueza à classe dominada quer pela via da exploração, quer pela do Estado monopolista, que a mantém regular e fartamente nutrida de juros, de rendas, de empréstimos, de resgates, de perdões fiscais. Retribui tudo isto pondo os seus funcionários diligentes em cargos mais e mais importantes, a dirigir bancos, a cuidar de empresas de construção, a negociar consórcios, a serem o que são os Paulos Portas, os Durões Barrosos, os Jorges Coelhos, os Antónios Vitorinos. O asco inevitável que toda esta situação gera entre as massas por uma ordem burguesa que a assalta no trabalho e no fisco, em condições normais e com adultos à mesa, impulsionaria uma luta da esquerda contra a ordem burguesa, denunciando como provenientes dela cada um dos problemas das massas. Mas não. Isso seria radicalismo, e extremismo, e aventureirismo, e demais patacoadas acabadas em ismo. As massas não alinhariam na pauta de uma esquerda radicalizada e truculenta a propor-lhe enforcar o último banqueiro nas tripas do último padre. As massas preferem um discurso sereno e firme, doce e cheio de amor, rejeita os maus modos e o ódio. Depois vêm os Trumps, as LePens, os Bolsonaros e os Farages que obtém resultados estrondosos em torno de pautas de ódio e extremismo, e essa esquerda fica sem saber como tal foi possível. Nem mesmo pensa em como isso foi possível, ocupada que está a, em pânico, se ir encolher agarrada à baínha das calças do PS lá do sítio.

A explicação dos poucos reformistazinhos da pseudo-esquerda que no meio do seu fugir para os braços do burguês bondoso ainda reflectem, tende a seguir caminhos muito parecidos com os da tese de que «a plebe» tende a ser mais sensível a argumentos racistas e homofóbicos do que a argumentos socialistas (porque o povo, como se sabe, é gebo até prova em contrário, ao contrário desta esquerda bem comportadinha e bem educadinha). Mesmo borrada de medo com a iminência de ser proletarizada, a esquerda pequeno-burguesa nunca perde um tique velho: o de se julgar incumbida de ensinar ao proletariado não os conhecimentos políticos que este, expulso do aparelho escolar às pazadas, fica privado de ter, mas a etiqueta de comer de faca e garfo, não dizer palavrões, e ter reivindicações comedidas e a virtude revolucionária da paciência. Sim, o capitalismo vai esmagá-la, e esmagá-la às mãos de um fascismo qualquer, mas o capitalismo é a sociedade da burguesia, que é uma classe educada, de mãos delicadas, que ouve Mahler e faz piadas em estrangeiro. Mal por mal, antes isso que estar agora a levar com os rompantes da turba, grosseira e a ouvir música pimba, que tem de perceber que é sua tarefa ouvir a esquerda bem pensante e melhor falante, cumprir o seu programa de meias tintas e pacto social, defender o Estado de Direito e o equilíbrio da sociedade. Quanto mais as massas começam a desembaraçar-se desta conversa de chacha que a obriga a marcar passo permanentemente, ao cheiro de qualquer coisa que soe a ruptura, mais histericamente estes reformistazinhos lhe falam em moderação, em serenidade, e eventualmente falarão em disciplina e em provocadores.

A classe tem, e faz muito bem, de se livrar destas lideranças amarelas por todo o mundo. Mas com a vigilância de não ser presa e massa de manobra de forças que representam o que há de mais inenarravelmente contrário aos interesses da própria classe e à decência comum mais elementar na vida social. É tempo de os trabalhadores reencontrarem o seu programa político de liquidação da ordem burguesa e de emancipação, nomeadamente da tutela dos aristocratas e dos reformistas bem pensantes.

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